Porto Alegre, 6 de setembro de 2010
   
 
 

O CASO SCHINCARIOL x BRAHMA NO CONAR EM ABRIL DE 2009.

Um título como o de ontem (03 de abril de 2009), conquistado de forma invicta pelo Corinthians no Pacaembu ao empatar com o Santos, acaba inegavelmente dando mais visibilidade ao jogador Ronaldo, que estrela a campanha publicitária da cerveja Brahma.

E isso é bom mas também é ruim. Em publicidade, como não me canso de dizer, os egos são acirrados. Disse isso, noutro dia, no próprio CONAR em São Paulo, durante uma sustentação oral que fiz naquele Conselho, representando um cliente. Casualmente, fiz isso poucos dias antes daquele mesmo CONAR receber (e acatar) a representação contra a propaganda da Brahma, apresentada pela concorrente cervejaria Schincariol.

Sendo os egos publicitários acirrados (na advocacia eles também são, como na maioria das profissões), nem sempre a MOTIVAÇÃO para uma contrariedade é aquela que de fato aparenta. Às vezes as empresas entram em rota de colisão (inclusive as empresas aéreas...), na verdade verdadeira, por razões bem simples e que não são bem por causa da infringência de quaisquer regras. Exemplifico essas prováveis razões em duas perguntinhas que os publicitários devem fazer a si mesmos, lá com os seus botões, quando resolvem entrar contra o concorrente no CONAR ou na Justiça. A primeira é "porque é que eu não pensei nisso antes?". E a segunda é "eu já pensei nisso antes e ninguém deu a mínima para a minha grande idéia!"
 
Não digo que seja o caso da Schincariol ou da sua agência de propaganda, mas as efetivas razões da Representação não foram bem esclarecidas pela mesma, ao menos na mídia. Mas, claro, devem estar explícitas lá na sua Representação ao CONAR que eu não li e sobre a qual - por isso - não posso opinar.

De um modo geral, porém, a alegação da Schincariol é a de que a publicidade da Brahma estaria ferindo o código de ética do mercado. E que eles (que, aliás, também já fizeram comerciais muito bons) tem por postura da Empresa representar contra tudo o que seja atentatório dessa mesma ética. 

Ronaldo na campanha
O que se leu por aí é que a Schincariol entendeu que o uso de Ronaldo na campanha estaria "linkando" o sucesso de alguém ao consumo de cerveja. Algo parecido com o que se fazia, no passado, com as campanhas de cigarros, da qual a mais famosa era "Ao sucesso, com Hollywood!", do cigarro de mesmo nome.

Outra questão "transpirada" pela mídia é a de que Ronaldo tem um forte apelo junto às crianças, o que impediria a sua participação em comerciais de bebidas alcoólicas.

O fato do Corinthians ter vencido o campeonato paulista ontem e tendo à frente a indiscutível e ressuscitada figura de Ronaldo dão, sem dúvidas, ainda maior visibilidade ao jogador. Não apenas no Estado de São Paulo que cultiva grandes ídolos "estrangeiros" (lembram do Carlito Tevez, herói e depois bandido?), como também em todo o Brasil.

Essa redobrada visibilidade, claro, deve pesar na hora dos Conselheiros do CONAR julgarem o caso.

Mas, convenhamos, se a argumentação da Schincariol virá centrada apenas naqueles dois argumentos, pelo menos um deles é meio fraquinho.

O suposto "apelo do Ronaldo junto às crianças" já foi devidamente decepado em alguns episódios pessoais envolvendo o nome do jogador dos quais todo mundo se lembra. E quem não se lembra é porque não quer se lembrar. Como sempre, tudo o que envolva paixões neste País (e o futebol é, disparado, o campeão) serve para apagar da memória do povo os episódios ruins ou duvidosos, enquanto o envolvido ainda seja um ídolo.Ou seja novamente um ídolo, como é o caso do Ronaldo. Então, se esse ídolo estiver no seu auge, mesmo que num auge meio fabricado, ninguém vai querer se lembrar do passado dele. É aquela história: "quando voltarem a chutá-lo, a gente desenterra a caveira do burro". Ou seja, quando o cara estiver por baixo, alguém relembra os podres do ex-ídolo, tudo de novo.

Já a questão das ligações entre sucesso e cerveja, de fato, infringem diretamente a regra escrita do Código de Ética. E são regras publicadas (ou reformuladas) pelo CONAR há mais ou menos um ano atrás, em abril de 2008. Não pode. Eu, se fosse psicólogo; psicanalista ou estudioso suscitaria dúvidas quanto ao embasamento psicológico dessa regra. Mas não sou. E a regra existe. Sendo advogado, portanto, não discuto e aplico a regra. E a regra diz, repito, que não pode.

O CONAR vai julgar o assunto, provavelmente neste mês de maio. E dirá se a campanha pode, ou não, permanecer no ar. Pelo que me consta, a Brahma, numa atitude conciliatória e - segundo diz - previamente estudada, vai fazer os ajustes e dizer que Ronaldo não é "brahmeiro" mas "guerreiro". O que continuaria, supostamente, a ligar sucesso à cerveja.

Nessa hora eu queria, mesmo, era ser um PhD em Psicologia para dizer que se neguinho quer encher a cara, ele vai fazer isso para afogar as mágoas ou alguns insucessos e não justamente para "atingir o sucesso".

Como não sou nada disso, calo a minha boca. E, de repente, bebo até um copo de cerveja depois do trabalho, para refletir melhor sobre o assunto. Ou para afogar as mágoas.